09 março 2008

Oficina de escrita criativa - Texto: Tenho uma dúvida

Título: "Oficina de escrita criativa - Texto: Tenho uma dúvida"
Local: Nextart, rua da vitória, Baixa Lisboeta
Modelos: Papel e caneta 
________________________________________________

IMG_7802 Como alguns sabem e outros ficarão agora a saber, nos meus anos recebi do grupo de amigos de infância uma participação numa oficina de escrita criativa! 8 de Março era o dia! Uns revoltados com a ministra, outros celebrando o dia da mulher, eu no metro rumo à Baixa lisboeta, à procura da Rua da Vitória. O mote da oficina, conduzida pela simpática Conceição Garcia, era escrever diferentes textos em contra-relógio - 10minutos - sob estímulos que nos eram apresentados: palavras recortadas do jornal do dia anterior, imagens, saídas à rua, infiltrações na manifestação e objectos, ou apenas terminar textos já iniciados. No final cada um lia o seu em voz alta e davamos a opinião individual!

 

O último exercício passava por escrever perguntas nuns papéis e respostas noutros, misturar tudo e obter conjugações díspares bizarras! Escolher a combinação favorita e em 10minutos (sempre os 10 minutos) escrever o texto que nos viesse à cabeça! E aqui segue o resultado desse último exercício:

As frases que tinha que incluir eram:

[PERGUNTA]: Porque é que as galinhas não têm dentes?

[RESPOSTA]: Porque me estou nas tintas para o que tu pensas

 

O cronómetro a contar e a caneta numa dança frenética sobre a virgem folha de papel...

 

"Tenho uma dúvida. Preciso de uma resposta.

Hey! Não estás a ouvir? Tenho uma dúvida! O que faço com esta dúvida? Sento-me sobre ela. Abraço-a. Provo-a. Cheiro-a. Mastigo-a. Ai, continuo com uma dúvida. Mas, a que sabe esta dúvida? A que cheira? Tenho uma dúvida. Preciso de uma resposta.

Saio de casa com a dúvida na algibeira, alguém me há-de responder. Aperto o quente casaco vermelho de gola subida para proteger do frio que se faz sentir na rua. Ponho a mão no bolso para a dúvida não me fugir! Lá está ela, a minha dúvida.

Rua a baixo, rua a cima. Tenho uma dúvida, e que dúvida! Ninguém me sabe responder? Como podem as pessoas passar indiferentes? Desculpe senhora do vestido às flores e do chachecol de lã: tenho uma dúvida! Não me ouve? Hey! Você aí, espere! Tenho uma dúvida.

Ai... só procuro uma resposta!

Subo e desço a velha escadaria da vila. Ficou calor, tiro o casaco que já pesa mas não tiro a minha dúvida. Sigo sem encontrar ninguém. Onde estarão as pessoas quando mais preciso delas? Tenho uma dúvida. Ninguém quer saber?

Desisto. Exausta regresso a casa, o corpo usado e rendido ao cansaço traça rectas perpendiculares acabando por cair sobre o sofá macio da sala e enroscando-se na manta de riscas que a avó fez quando ainda era viva. Sinto-me bem ali. Segura. Mas ponho a mão no bolso e ela ainda lá está: oh não! Ainda? Tenho uma dúvida. Preciso de uma resposta.

Oiço o som familiar da porta da rua, sinto o perfume que tão bem conheço. O pai chegava cansado de mais um longo dia de trabalho, ainda de gravata apertada e com a mala preta que lhe dei nos anos na mão e que lhe fica tão bem.

- Pai, pai! Tenho uma dúvida. Preciso de uma resposta.

Em silêncio ele assente com a cabeça com a paciência própria dos pais.

- Porque é que as galinhas não têm dentes?

- Porque me estou nas tintas para o que tu pensas! Esses programas do canal Odisseia só te fazem mal! E liga mas é a SporTv que o meu Benfica vai começar - disse ele enquanto descalçava os sapatos poeirentos.

Mas... mas... mas eu tenho uma dúvida! Preciso de uma resposta!"

 

Sobre a dúvida da solidão e da busca de atenção...

 

Foi um dia muito bem passado, desenferrugar ideias e concretizá-las! Exercícios que irei com certeza repetir agora em casa...

That's all Folks

1 comentário:

Juneau disse...

adorei o texto, mto bem mto bem ;)

estou a ver, quero ler mais.
beijinho*